Escrito por:

Leodir D. Hilgert

Proprietário e fundador da Vinícola Casa Tertúlia

2021-08-12 12:02:00

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Legado de pai para filho? Conheça a história familiar da Casa Tertúlia

É comum a passagem de um legado de pais para seus filhos quando se fala do cultivo da uva e da produção de vinhos. Mas a história da Casa Tertúlia tem uma peculiaridade que foge um pouco a essa regra. Estabelecida em 2017, a saga familiar da vinícola começa quase cem anos antes, com os trabalhos dos avôs e avós de seus fundadores.

Em 1948, quando Albino Wagner e sua esposa Augusta Flora Knack mudam-se para o atual município de Dr. Maurício Cardoso, no noroeste do Rio Grande do Sul, encontram um parreiral de videiras na propriedade adquirida. Inicialmente sem saber o que fazer com aquelas uvas, contaram com os conhecimentos de um vizinho que os ensinou a processá-las e elaborar vinhos artesanais.

O casal Augusta Knack e Albino Wagner em meados de 1980, precursores da arte de vinificação que muitos anos antes fora aprendida com um vizinho e levada adiante pela família.

Um de seus filhos, o sempre bem humorado Armando Wagner, na época ainda um menino de apenas seis anos, acompanhando o pai desenvolve um grande fascínio pela prática de fazer vinho e leva o aprendizado por toda sua vida, passando a produzir algumas garrafas para consumo próprio e de amigos. Creditamos ao Seu Armando o resgate desta história, relatada na varanda da sua casa no interior do Alto Uruguai.

Armando Wagner, o tio Mando, a quem devemos o resgate dessa história, e que por muito tempo também produziu seus próprios vinhos e passou os ensinamentos aos filhos.

Augusta, seus filhos e o esposo mudam-se para o interior do município de Horizontina, onde decidem continuar com o cultivo de uvas, com Albino passando a vinificá-las para a família. Assim, em cada Natal, os familiares reuniam-se em sua casa para desfrutar das comidas deliciosas da vovó Augusta e deliciar-se com os vinhos do vovô Albino, que se encontravam em barris armazenados no porão da velha casa de madeira.

Quando os avós Albino e Augusta adquirem uma idade mais avançada, sua filha Ludwina e o esposo, Bruno Hilgert, acompanham-nos estabelecendo-se na propriedade da família Wagner. Foi nesse período que o patriarca ensina seu genro Bruno a processar as uvas e produzir vinhos artesanais da forma como ele fazia. Mais tarde, Bruno retorna para sua antiga morada, também em Dr. Maurício Cardoso, sendo incentivado por seu filho mais novo, Leodir, outro apreciador dos vinhos e das alegrias que proporcionavam na família, a continuar produzindo seus próprios vinhos artesanais. Assim, entre a vida, moradas e o cuidado familiar, manteve-se a tradição da uva e do vinho na família.

Fotografia de Ludwina Wagner e Bruno Hilgert. Após aprender o ofício com o sogro, Bruno seguiu produzindo e apreciando vinhos artesanais por toda a vida, paixão que passou ao filho Leodir.

Em 1993, casam-se Leodir Hilgert e Viviane Massi, uma jovem linda e sonhadora que se entusiasmava com a ideia de produzir seu próprio vinho. Na família de Viviane também se mantinha o hábito de produzir sucos de uvas artesanais entre as mulheres do lado paterno da família. Sua avó Laura Massi e as tias usavam técnicas antigas de pasteurização da uva através de fervuras em “banho maria”, conservando assim os sucos integrais em uma espécie de compota para serem degustados nos períodos das entressafras, armazenados em garrafas que hoje conhecemos como as de cerveja e tampadas com rolhas.

Família Massi reunida, com Laura e Floriano sentados, acompanhados das filhas já casadas e do filho Olívio, ao centro. Laura e as filhas mantinham o hábito de produzir sucos de uva em casa, passando a técnica de conservação das frutas por gerações.

Também Erna Dopke e Olívio Massi, pais de Viviane, tinham o hábito de cultivo da uva para consumo in natura e geleias. Era comum que os vizinhos viessem à sua casa, convidados a comer as uvas nos próprios pés, onde cresciam em fartura. Além de presentear amigos e vizinhos e servir para o consumo da família, serviam para coberturas das típicas cucas de uva e para as geleias ou schmiers que se produziam em casa. Assim foi também passado aos filhos o interesse pelo cultivo da uva. Viviane, entusiasmada em conhecer mais sobre as vinhas e os vinhos, acompanhava seu sogro Bruno Hilgert nas conversas sobre o assunto. Essa disposição fez perpetuar o legado das uvas e da vinificação, que hoje mantemos com a vinícola Casa Tertúlia. Um ensinamento passado não apenas de pais para filhos, mas de pais para genro e depois para nora.

Na foto a família Dopke, com Hermina Betcher, Henrique e seus filhos. Erna, a segunda da esquerda para a direita, terá em sua casa um parreiral de uvas, compartilhando as frutas com vizinhos e elaborando geleias e as tradicionais cucas de uva.

Em 2006, Leodir e Viviane Hilgert, juntamente com seus dois filhos, Jéssica e Gabriel, mudam-se para a Serra Gaúcha, nas proximidades do Vale dos Vinhedos, a “meca” da enologia brasileira. É então que Viviane faz seus estudos em Viticultura e Enologia e se especializa como sommelière, dedicando-se definitivamente à produção de vinhos finos de alta qualidade. É nessa fase que a tradição familiar, a paixão pelos vinhos, as amizades e os bons momentos unem-se com o conhecimento técnico e científico que dão origem ao processo produtivo da Casa Tertúlia.

Viviane Massi Hilgert, enóloga da Casa Tertúlia, em sua formatura no ano de 2017.

Depois da formação em enologia, surge a ideia do casal fundar a própria vinícola, com o objetivo de combinar diferentes experiências, juntando a rigidez dos controles absorvidos atuando em grandes corporações com a paixão pela vinificação e o desejo de deixar uma contribuição para um estilo de vida melhor. O objetivo traçado foi o de juntar conhecimento tecnológico, paixão, equilíbrio ambiental e controles exigentes para elaborar pequenos lotes com qualidade superior, a serem oferecidos a um público que busca por uma experiência diferenciada. Junto a isso, une-se a ideia de conciliar vinhos com refeições harmonizadas e bons momentos com pessoas queridas, transformando estas experiências em momentos inesquecíveis, lembrado mesmo na escolha do nome da vinícola.

Leodir e Viviane Hilgert em frente aos portões da vinícola.

Eis que em 2017 surge então a Vinícola Casa Tertúlia, uma vinícola boutique cujo projeto parte do princípio de integrar um ecossistema ambiental que permite usar do equilíbrio ecológico para minimizar a necessidade de intervenção química na produção das videiras. Integrando a produção das uvas em vinhedos consorciados com ovinocultura, é feito um controle de ervas daninhas; e com a manutenção de aves como galinhas, galinhas d’Angola, patos e gansos, que se encarregam de comer pequenos insetos, faz-se o controle de pragas no parreiral. Hoje, junto do esposo e filhos, Viviane Hilgert, a enóloga da vinícola Casa Tertúlia, é a grande responsável pela produção dos derivados da uva, mantendo o foco em fabricar vinhos do mais alto padrão de qualidade, combinando a tecnologia e controle de processo, que inicia num específico método de cultivo aliado a uma rigorosa seleção das uvas de excelente padrão de sanidade, ideais para a vinificação. O resultado deste trabalho cuidadoso, suportado pela tecnologia inserida na vinificação, a dedicação da família e o acompanhamento integral de uma enóloga apaixonada pelo que faz, imprime no terroir dos vinhos Casa Tertúlia a estampa de sua alma e a história de gerações.

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Escrito por:

Jéssica Hilgert

Sommelière, estudante de filosofia e colunista da Casa Tertúlia

2021-02-02 03:40:37

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Isabel, vitis labrusca: um vinho na memória gustativa de muitos

De casta proibida a memória bem guardada, os vinhos de uva Isabel evocam a história de nossos antepassados e voltam a ser prestigiados por suas pecularidades.

“Quando bebo esse vinho, lembro do meu avô, dos almoços em família, abastecidos pelo vinho que ele fazia e guardava no porão da sua casa.” Esse relato, não incomum quando convidamos amigos para degustar nosso vinho proibido, costuma ser manifesto por muitos que viveram uma história hoje menos usual, mas ainda presente nas memórias de muitos. Por ser uma uva de cultivo mais dócil e de fácil adaptação, sua presença estendeu-se por nossos solos, especialmente no sul do país, onde muitos imigrantes europeus utilizaram a variedade para fazer vinhos, buscando reproduzir os que conheceram em suas terras originárias.

Não se encontravam videiras à época no Brasil. Na tentativa de cultivá-las, eram trazidas frações de seus galhos, que, ao serem afundadas na terra, desenvolvem as plantas perfeitamente. Mas o cultivo de uvas finas, além de ser ameaçado pela filoxera (inseto que dizimou vinhedos pelo mundo no século XVIII), não obteve êxito, até se passar a utilizar mudas enxertadas, o que ocorreu apenas na década de 1920 no Brasil. Dificuldades no manejo e tentativas fracassadas ocasionaram a substituição das mudas de cultivares europeias (vitis vinífera) pelas americanas (vitis labrusca), que além de tudo são mais resistentes à filoxera. De espécies diferentes e características bastante variadas, unificam-se quanto ao resultado tão desejado: o sumo fermentado das uvas que reaparecia então sobre as mesas.

Reunião familiar em Caxias do Sul, datada de 1928, de Franklin Benvenutti. Apesar das garrafas remeterem atualmente à cerveja, a coloração nos copos e o contexto de produção de vinhos, presente então na época, indica-nos qual era a bebida desfrutada.

Foi essa transformação que ainda hoje faz com que muitas pessoas tragam o hábito de elaborar vinhos com uvas de mesa, como é o caso da uva Isabel, e muito comumente inclusive desconheçam as viníferas europeias. Assim, guarda-se na memória o vinho conhecido através de familiares ou amigos e que era produzido dessa forma. Muitos ainda seguem o cultivo ou o consumo de vinhos de mesa, preferindo-os sobre os vinhos finos (assim chamados pela legislação brasileira, sendo uma das poucas categorias distinguidas, se compararmos, por exemplo, às inúmeras diferenciações encontradas nas leis da França). Mesmo que nos dias atuais vinhos de todas as castas e partes do mundo estejam acessíveis, as recordações mantêm com carinho os sabores e aromas que se sentiam naquelas taças.

Os famigerados “vinhos de garrafão”, por muitos conhecidos e ainda comercializados não como raridade no sul do país, são em sua vasta maioria vinificados a partir de uvas de mesa.

Em 1913, a plantação de uvas Isabel no Rio Grande do Sul equivalia a 96% de todas as videiras encontradas. Hoje em dia, seu percentual é de 32%, o que marca uma variação no consumo e produção de vinho. Com o passar do tempo, foram surgindo no país vinhedos de uvas europeias, como a Cabernet Sauvignon e a Merlot. Passou-se a descobrir como cultivá-las e a apreciar os vinhos finos, que efetivamente se destacam em algumas características perante os vinhos de uvas americanas. Por exemplo, não é comum um vinho de mesa manter-se em seu melhor estado senão em seus anos mais jovens, embora haja raríssimas exceções. Ademais, esses vinhos costumam conservar suas características durante seu breve período de maturação, ou seja, um vinho Isabel terá em 3 anos os mesmos sabores e aromas que possuía quando de sua elaboração, sem mudanças expressivas. Nos vinhos finos, sobretudo os mais encorpados, ocorre o fenômeno inverso, que muito nos encanta, em que há alteração das notas sensoriais com o decorrer do tempo. O Cabernet Sauvignon da Casa Tertúlia de 2018 possuía coloração rubi e forte aroma de frutas vermelhas silvestres nesse ano. Hoje, encontram-se agregadas notas de caramelo, chocolate e especiarias, que se desenvolveram com o tempo, assim como uma coloração granada muito diversa.

Já o vinho Isabel da Casa Tertúlia pode ser considerado um vinho “atemporal”, pois os sabores frutados que apresentava em sua elaboração ainda nos surpreendem ao se mostrarem nas taças que dele servimos. Este vinho, porém, tem uma peculiaridade. A enóloga utilizou uma técnica de contato com viníferas finas, o que lhe tornou mais tânico, deu-lhe corpo, intensidade de cor e estrutura, e aproximou-o de características de vinhos feitos com uvas europeias, não deixando as marcas da uva Isabel ocultadas, mas lhe dando maior complexidade. Assim, mesmo sendo um vinho indubitavelmente resultante de uma varietal labrusca e todas as memórias que elas nos trazem, serviu como experimento de sucesso para apresentar o amálgama das duas espécies de uva.

Encravado na memória afetiva e gustativa de muitos, o vinho Isabel deve ser honrado e reconhecido enquanto tal, pois além de carregar lembranças e uma boa parte da história de nossos antepassados, é apreciado por suas propriedades únicas e características. Mais terroso, frutado e indicado para ser bebido jovem, sua coloração de vermelho rosado atinge muitos apreciadores, livres das regras dos vinhos finos, que dirigem a ele seus mais agraciados votos de admiração e desfrute, tornando-o um vinho diferente, inusual aos que ainda não o conhecem, e uma torrente de lembranças aos que o levam em sua história.

Vinho de mesa Isabel da Casa Tertúlia elaborado no Alto Uruguai gaúcho. Além de suas notas frutadas e terrosas, traz a história de inúmeras famílias que produziram esse vinho por gerações.

Por se tratar de um vinho presente na memória de tantos que, através dele, reencontram-se com seus pais, mães e avós, optamos por elaborar, aqui na Casa Tertúlia, um vinho ícone de nossa história, que ao ser degustado nos leva a recordar de conversas, pessoas e momentos que marcaram nossas vidas. Queremos que depois de nós também outros o conheçam, pois nele há mais do que uma casta “não fina”, e sim um elogio aos tempos difíceis, às superações e ao amor que os seres humanos têm por boas conversas, regadas a bons vinhos. Este que, aliás, é o mote da Casa Tertúlia. Um viva também aos vinhos de mesa de boa qualidade!

Fontes:
https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/especiais/vinhos_e_espumantes_2019/2019/05/682534-isabel-a-historia-do-vinho-gaucho.html
https://vinhonosso.com/tag/vitis-labrusca/
https://crownwines.com.br/as-uvas-vitis-vinifera-e-vitis-labrusca/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Reuni%C3%A3o-de-fam%C3%ADlia—1928.jpg
https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/economia/2019/06/691115-simbolo-do-interior-gaucho-vinho-colonial-comeca-a-deixar-os-poroes.html
https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/uva_para_processamento/arvore/CONT000g5f8cou802wx5ok0bb4szwyx060i6.html
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-20612000000100022
https://amanha.com.br/categoria/brasil/a-epopeia-da-isabel-uva-que-transformou-o-agricultor-em-viticultor
https://revistamarieclaire.globo.com/Blogs/Boa-de-Copo/noticia/2020/08/conheca-o-vinho-natural-feito-com-renegada-uva-isabel-mesma-do-vinho-de-garrafao.html
http://vinho.ig.com.br/2020/06/04/a-filoxera-foi-o-coronavirus-do-vinho.html

Agradeço também a Viviane e Leodir Hilgert pelo entusiasmo e os ensinamentos passados com seus relatos.

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